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Nada dura para sempre

Nada dura para sempre

"Nada dura para sempre". Seguramente, pode-se afirmar que essa expressão, em virtude de seu regular emprego nos diálogos do cotidiano, transformou-se em um clichê comunicativo, um típico conselho aplicado nesses banais bate-papos. Entretanto, essa singela frase carrega, consigo, uma interessante ambiguidade, um, muitas vezes, imperceptível duplo-sentido que possibilita o início de construtivas reflexões e discussões acerca dos significados detidos pela mesma e, posteriormente, o aprendizado de essenciais lições de vida. 
 
  A dor e o sofrimento são velhos conhecidos do humano, tornando-se raro encontrar uma livre alma que, durante sua finita jornada vital, esteve imune a esses sentimentos, à situações melancólicas, trágicas e tristes. Tais emoções, cuja origem é relativa e motivada por incontáveis circunstâncias (patologias, dificuldades financeiras, problemas profissionais ou sociais, transtornos psíquicos, solidão, desânimo, devaneios amorosos etc.), exercem, inigualavelmente, um mórbido poder sobre a mente de uma pessoa, deixando-a frágil e jogando-a em um vasto redemoinho de preocupações e angústias, onde essa vê-se sem saídas, sem alternativas ou soluções para seus respectivos distúrbios, condenada ao fim. Porém, com base no princípio central contido na primeira ideia transmitida pela "frase-tema", constata-se que os males existenciais não são eternos e que muitas das situações responsáveis pelo enfraquecimento do ser, por conduzi-lo a um estágio de incompatibilidade com a vida, são reversíveis. A manutenção de esforço, persistência, esperança e fé, esteja essa vinculada ou não a uma crença religiosa, em intensidades constantes e inalteráveis auxiliaria, igualmente, um indivíduo a promover sua redenção com mais agilidade e a conquistar mais força e resistência emocional. 
 
 A primeira lição extraída da expressão "nada dura para sempre" detém um caráter orientador, guiando aqueles que se encontram em prantos, desesperados e confinados em uma opressora realidade à resolução de seus entraves, fortalecendo-os, intelectualmente, e fornecendo-lhes uma potente luz que dissipa quaisquer trevas existenciais. O segundo preceito abrangido por essa notável oração, de certa forma, propicia uma melhor compreensão da imprevisibilidade característica dos tempos atuais. Graças à polarização social, em um mesmo fragmento territorial, é possível deparar-se com cidadãos submetidos à condições deploráveis, vítimas de um sistema desigual, e, simultaneamente, com uma parcela social privilegiada por uma gama de fatores. Parte dessa última, desfrutando da posição hierárquica que lhe é conferida, costuma vangloriar-se de seus feitos, bens e patrimônios, menosprezando segmentos civis menos favorecidos, o que contribui, lamentavelmente, para incrementar a segregação já existente. Todavia, como já se pôde concluir através do segundo parágrafo desse texto, a vida é uma inconstante cadeia de eventos, composta tanto por heroicas histórias de superação, apesar da natureza utópica que lhes é atribuída, quanto por surpreendentes quedas. Resumidamente, verifica-se que a segunda interpretação realizada a respeito dos sentidos desse dito linguístico, ensina que as supostas alegrias e os bens materiais não são infinitos, assim como as dores, em contraposição ao que crava o senso comum. 
 
  Assim sendo, por intermédio do exame das plausíveis mensagens abarcadas por essa sentença, entende-se que nada nesse aleatório ciclo de peripécias é perpétuo. Em razão dessa eventualidade, tanto o sofrimento, quanto o sucesso podem cessar a qualquer instante. Além de tudo o que foi citado, nota-se, inclusive, que essa máxima reflete, indiretamente, a importância do presente, que deve ser aproveitado com o intuito de espantar quaisquer ressentimentos possíveis, e a pluralidade do idioma português, onde uma curta expressão formada por 4 vocábulos engloba essenciais ensinamentos aplicáveis à civilização global, em sua totalidade.